Ultrassom de tireoide e TI-RADS: como descrever e classificar nódulos no laudo

Dicas Práticas 10 de junho de 2026· 8 min de leitura · atualizado em 16 de julho de 2026

Este artigo faz parte do guia Classificações padronizadas no laudo: o guia de BI-RADS, TI-RADS e O-RADS.

No ultrassom de tireoide, o TI-RADS (Thyroid Imaging Reporting and Data System) é o sistema que transforma a descrição do nódulo em conduta objetiva. Na versão mais usada hoje, o ACR TI-RADS (American College of Radiology, 2017), cada nódulo recebe pontos em cinco categorias morfológicas — composição, ecogenicidade, forma, margem e focos ecogênicos — e a soma define a categoria final, de TR1 a TR5. Essa categoria, cruzada com o tamanho da lesão, indica se o caso pede PAAF (punção aspirativa por agulha fina), seguimento ultrassonográfico ou nenhuma das duas coisas. Em resumo: TR1 e TR2 não requerem PAAF nem seguimento; TR3 pede PAAF a partir de 2,5 cm e seguimento a partir de 1,5 cm; TR4, PAAF a partir de 1,5 cm e seguimento a partir de 1,0 cm; TR5, PAAF a partir de 1,0 cm e seguimento a partir de 0,5 cm.

Para que essa classificação funcione, o laudo precisa descrever cada nódulo relevante com localização, dimensões nos três eixos e as cinco características pontuadas, informar a pontuação total, atribuir a categoria TR e fechar a conclusão dizendo explicitamente se há ou não indicação de PAAF. Com nódulos presentes em cerca de metade dos adultos submetidos a ultrassonografia, o desafio deixou de ser detectar a lesão e passou a ser estratificar o risco e padronizar a recomendação — evitando punções desnecessárias em lesões de baixíssimo risco sem perder o paciente que realmente precisa de investigação. Abaixo, a estrutura completa do laudo, categoria por categoria.

Por que o laudo de tireoide exige tanta padronização

A tireoide é uma glândula pequena, superficial e relativamente simples de varrer — mas o impacto clínico do laudo é grande, porque cada nódulo descrito vai gerar, ou não, uma indicação de PAAF. Um nódulo descrito como "hipoecogênico, sólido, com microcalcificações" sem categoria de risco gera dúvida sobre conduta. Um nódulo apenas chamado de "suspeito" sem detalhamento morfológico não pode ser comparado com exames futuros. E uma conclusão que recomenda PAAF sem critério objetivo expõe o paciente a procedimentos invasivos potencialmente evitáveis.

A padronização TI-RADS resolve três problemas ao mesmo tempo: uniformiza a descrição morfológica, estratifica o risco de malignidade e orienta a indicação de PAAF com base no tamanho da lesão. É o mesmo raciocínio do BI-RADS nas mamas: transformar uma avaliação de componente historicamente subjetivo em uma linguagem objetiva e auditável, compreendida tanto por quem lauda quanto pelo endocrinologista que recebe o documento. Para o ultrassonografista, isso significa um laudo mais defensável tecnicamente e mais útil clinicamente. Para o paciente, menos exames repetidos e menos procedimentos desnecessários.

Técnica e limitações: o bloco que abre o laudo

Antes da descrição anatômica, vale registrar o tipo de exame, o equipamento quando relevante e qualquer limitação técnica observada — biotipo do paciente, glândula de difícil acesso, tireoide mergulhante ou cirurgia prévia. Esse bloco contextualiza o médico solicitante e protege o profissional que assina.

A descrição padrão do parênquima tireoidiano

Antes de chegar aos nódulos, o laudo precisa caracterizar a glândula como um todo:

  • Topografia e dimensões: tireoide tópica ou ectópica, com medidas dos lobos direito e esquerdo (longitudinal, transversal e ântero-posterior) e do istmo. O volume glandular pode ser calculado pela fórmula do elipsoide (comprimento x largura x espessura x 0,524) para cada lobo.
  • Contornos, ecotextura e ecogenicidade: homogênea ou heterogênea, normoecogênica, hipoecogênica ou hiperecogênica em relação à musculatura cervical adjacente. A heterogeneidade difusa associada à hipoecogenicidade sugere tireoidite crônica e deve ser explicitada.
  • Vascularização ao Doppler colorido: normal, aumentada ou reduzida. Útil principalmente no contexto de tireoidites e bócios difusos.
  • Linfonodos cervicais: nos casos com nódulos suspeitos, a varredura das cadeias cervicais (níveis II a VI) deve ser sistemática, com descrição de morfologia, hilo, vascularização e medidas dos linfonodos atípicos.

As cinco categorias morfológicas do ACR TI-RADS

Conhecer as cinco categorias de cor é o que garante um laudo consistente. A descrição de cada nódulo deve seguir essa mesma sequência, para que a categoria final seja consequência natural do texto.

CategoriaAchadoPontos
Composiçãocístico ou quase totalmente cístico0
espongiforme0
misto cístico-sólido1
sólido ou quase totalmente sólido2
Ecogenicidadeanecoico0
hiperecogênico / isoecogênico1
hipoecogênico2
muito hipoecogênico3
Formamais larga do que alta0
mais alta do que larga3
Margemlisa ou indefinida0
lobulada ou irregular2
extensão extra-tireoidiana3
Focos ecogênicosnenhum ou artefatos em cauda de cometa grandes0
macrocalcificações1
calcificações periféricas em casca2
microcalcificações puntiformes3

Alguns pontos merecem atenção na hora de pontuar. Nódulos espongiformes — formados por múltiplos microcistos ocupando mais de 50% do volume — são essencialmente benignos. A hipoecogenicidade marcada, sempre aferida em relação à musculatura cervical (músculos pré-tireoidianos), é um dos principais preditores de malignidade. A forma é avaliada no plano transversal: relação altura/largura maior que 1 é sinal forte de suspeição, derivado do crescimento perpendicular ao plano tecidual normal. A irregularidade de margem reflete crescimento infiltrativo e tem peso importante na estratificação. E as microcalcificações são especialmente associadas ao carcinoma papilífero.

Da pontuação ao nível TR

Somando os pontos das cinco categorias, o nódulo é classificado em uma das cinco categorias finais, cada uma com pontos de corte próprios por tamanho:

CategoriaPontosRiscoPAAFSeguimento
TR10benignonão indicadanão recomendado
TR22não suspeitonão indicadanão recomendado
TR33levemente suspeitose ≥ 2,5 cmse ≥ 1,5 cm
TR44 a 6moderadamente suspeitose ≥ 1,5 cmse ≥ 1,0 cm
TR5≥ 7altamente suspeitose ≥ 1,0 cmse ≥ 0,5 cm

Essa correlação entre pontuação, categoria TR e ponto de corte por tamanho é o que transforma o TI-RADS em um instrumento clinicamente útil — e o que mais frequentemente é omitido em laudos não estruturados. Os limiares foram desenhados para reduzir punções desnecessárias, especialmente em nódulos pequenos e de baixo risco, sem perder o paciente que realmente precisa de investigação.

Como descrever cada nódulo no laudo

Cada nódulo relevante merece um bloco descritivo próprio e padronizado, contendo no mínimo:

  • Localização (lobo, terço — superior, médio ou inferior — e relação com istmo, cápsula ou estruturas adjacentes);
  • Dimensões nos três eixos, com cálculo da relação altura/largura;
  • Composição, ecogenicidade, forma, margem e focos ecogênicos;
  • Vascularização ao Doppler;
  • Pontuação parcial por categoria e pontuação total;
  • Categoria TR atribuída.

Com múltiplos nódulos, a regra prática é caracterizar individualmente até três a quatro lesões — preferencialmente as de maior tamanho ou maior pontuação TI-RADS — e mencionar as demais de forma sumarizada. Os nódulos suspeitos têm prioridade sobre os volumosos quando há divergência: um TR5 de 1,2 cm é mais importante para a conduta do que um TR2 de 4 cm.

Vale ainda padronizar uma numeração por localização, no formato "Nódulo 1 (lobo direito, terço médio)", e manter essa identificação nos laudos futuros do mesmo paciente. Em uma especialidade em que o seguimento é parte central da conduta, é o que permite comparar dimensões exame a exame sem ambiguidade.

Linfonodos cervicais: a parte do laudo que mais se esquece

A avaliação dos linfonodos cervicais deveria ser rotineira em todo ultrassom de tireoide — e não apenas quando há suspeita prévia de doença maligna. Linfonodos atípicos podem ser o primeiro indício de carcinoma papilífero metastático, especialmente em pacientes assintomáticos. Em pacientes com nódulos TR4 ou TR5, essa avaliação é parte essencial do exame, não um anexo.

Os critérios ecográficos de suspeição incluem: perda do hilo gorduroso, forma arredondada (relação eixo curto/eixo longo > 0,5), hipoecogenicidade marcada, microcalcificações intranodais, áreas císticas intralinfonodais e vascularização periférica ao Doppler, em vez do padrão hilar normal. A presença de qualquer um desses sinais deve ser explicitada no laudo, com medidas e localização por níveis cervicais.

A conclusão: do achado à conduta

A conclusão é a parte do laudo que o médico solicitante mais lê — e a que mais frequentemente decepciona. Uma boa conclusão de ultrassom de tireoide responde a três perguntas em poucas linhas:

  1. Como está a glândula como um todo? Volume aumentado, normal ou reduzido; parênquima homogêneo ou compatível com tireoidite; vascularização normal ou alterada.
  2. Há nódulos? Se sim, quantos, qual a maior categoria TR e qual o tamanho da lesão mais suspeita — retomando, quando houver exame anterior, as dimensões prévias para indicar estabilidade ou crescimento.
  3. Há indicação formal de PAAF ou apenas de seguimento? Isso deve ser dito com clareza, sem deixar a responsabilidade da interpretação para o médico assistente.

Uma conclusão bem construída é objetiva, hierarquizada e diretamente correlacionada com o corpo descritivo. Não substitui a decisão clínica, mas a apoia — é o que transforma um laudo correto em um laudo útil.

Erros comuns no laudo de tireoide

Os deslizes mais frequentes na rotina são previsíveis e, em sua maioria, evitáveis:

  • Descrever sem classificar: detalhar a morfologia do nódulo sem atribuir a categoria TR retira do laudo grande parte do seu valor para o seguimento.
  • Classificar sem descrever: mencionar "TR4" na conclusão sem que o parágrafo do nódulo traga as características que sustentam a pontuação.
  • Usar termos imprecisos: "nódulo suspeito" ou "nódulo de aspecto benigno" sem critérios objetivos.
  • Omitir a relação altura/largura na descrição da forma, ou não medir o nódulo nos três eixos.
  • Descrever apenas o maior nódulo: em uma glândula multinodular, o nódulo dominante em tamanho não é necessariamente o de maior risco.
  • Misturar terminologias: alternar entre "isoecoico" e "isoecogênico", ou entre "microcalcificações" e "focos ecogênicos puntiformes", dentro do mesmo laudo.
  • Ignorar linfonodos cervicais em pacientes com lesões TR4/TR5 ou em seguimento oncológico.
  • Comparativos pobres: não citar exames anteriores quando existem, ou usar frases genéricas como "estável em relação ao prévio" sem retomar dimensões.
  • Concluir sem conduta: talvez o mais frequente de todos, fechar o laudo sem mencionar a indicação ou não de PAAF.

Todos esses erros têm uma causa comum: ausência de um fluxo estruturado de digitação. Quando o ultrassonografista precisa lembrar de cada item enquanto digita, omissões são inevitáveis na rotina apertada. A solução não está em digitar mais devagar — está em laudar dentro de uma estrutura que já carregue o protocolo.

Como o Laudário ajuda na padronização do laudo de tireoide

É exatamente nesse ponto que o Laudário entra como ferramenta de apoio à rotina do ultrassonografista. O sistema oferece modelos prontos de ultrassom de tireoide (com e sem Doppler) já estruturados conforme as recomendações do ACR TI-RADS, organizados na ordem de varredura, com campos para descrição do parênquima, caracterização individual dos nódulos e avaliação das cadeias linfonodais.

A grande diferença está na classificação TI-RADS automática integrada ao fluxo do laudo: à medida que o médico marca a composição, ecogenicidade, forma, margem e focos ecogênicos de cada nódulo, o sistema calcula a pontuação total e atribui a categoria TR correspondente, sugerindo automaticamente o ponto de corte para PAAF ou seguimento conforme o tamanho da lesão. Isso elimina o cálculo mental sob pressão e reduz drasticamente o risco de classificações inconsistentes entre laudos. Cálculos como o volume tireoidiano também são feitos no próprio fluxo de digitação, sem contas manuais.

Frases e conclusões são totalmente personalizáveis, permitindo que cada profissional ajuste o texto ao seu estilo de laudar sem abrir mão da padronização e da terminologia consistente entre exames da mesma clínica. O histórico do paciente fica centralizado, o que facilita a comparação com laudos anteriores no seguimento, e a versão final pode ser impressa com QR Code de validação digital, agregando segurança e rastreabilidade ao documento entregue ao paciente. A biblioteca cobre ainda mamas, axilas, abdome, pelve, obstetrícia e Doppler, tudo em um só sistema online.

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